Autora: Elizabete Possidente


Os adolescentes sempre tiveram uma sensibilidade emocional exacerbada e um cérebro ainda em desenvolvimento que é mais sensível a flutuações hormonais.

No contexto atual, vemos isso de forma muita mais evidente. Temos, hoje, adolescentes que nasceram com o desenvolvimento digital, os chamados geração Z. Estes estão manifestando maior consumo de álcool e drogas em idade cada vez mais precoce, comportamentos mais arriscados em relações sexuais desprotegidas, em esportes radicais, maior dificuldade a mudanças, baixa tolerância a frustrações, idéias suicidas e comportamentos de automutilação.

Comportamentos suicidas e automutilação nos jovens são motivos de encaminhamentos para avaliação médica de urgência por pediatras, pais e colégios no cotidiano do consultório de todos os psiquiatras no mundo.

A taxa de suicídio nos jovens vem aumentando a cada ano, a Organização Mundial de Saúde (OMS) refere ser a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

O jovem com comportamento suicida apresenta a intenção e o planejamento, além de apresentar alguns dos fatores de risco a seguir:

  • presença de distúrbios psiquiátricos, tais como, Transtorno depressivo, Transtorno de ansiedade, Transtorno bipolar, alguns Transtorno de personalidade, Transtorno de uso de substâncias psicoativas /ou álcool e Transtornos alimentares.
  • história de estresses na Infância, tais como, abuso, maus tratos físicos ou psicológicos, negligências, dificuldade em se apegar, doenças graves, cirurgias na Infância, vítima de acidente grave, família disfuncional, pais deprimidos, sensação de abandono afetivo por um dos pais, abuso de álcool ou drogas de um dos pais.
  • história social com estressores, tais como, bullyng, cyberbullying, isolamento social, amigos com autoagressão, dificuldade de relacionamentos e acompanhar vídeos/relatos de ideação suicida ou automutilação nas redes sociais.
  • História na família de tentativas ou de morte por suicídio.
  • Características individuais, tais como, insegurança, baixa autoestima, instabilidade emocional, imaturidade, impulsividade, sentimentos de culpa, distorção de imagem corporal, baixa tolerância á frustração e pouca resiliência.
  • História de tentativa de suicídio anterior.

Os jovens com comportamento de automutilação podem se manifestar de algumas formas diferentes. Podem cutucar a pele para provocar uma ferida, ou cutucar uma acne, uma ferida já existente, puxar cutícula, sempre com a intenção de ferir e se sentem aliviadas com o ato. É também denominado Transtorno de escoriação, skinpicking ou dermatotilexomania. Alguns pacientes tem diversas cicatrizes com hiperpigmentação no rosto ou no corpo, infecções de repetição sendo muitas vezes encaminhados pelo dermatologista.
Podem provocar danos a superfície da pele por cortes, na maioria das vezes nos pulsos e braços. O dano é superficial e não tem a intenção de morrer. Também são denominados self-cutting ou self-injury. Alguns gostam de deixar aparente e outros tendem a esconder com pulseiras ou uso de casacos ou fazem em áreas não expostas como virilha.

A automutilação se não avaliada e tratada adequadamente também pode evoluir para um comportamento suicida. Em todos os casos é fundamental não criticar, mostrar empatia, evitar frases de ajuda evasivas como “tudo vai ficar bem”, “anime-se”, “saia com amigos e tudo vai passar”, tenha escuta e encaminhe para avaliação profissional o quanto antes.
Não deixe de consultar um psiquiatra e psicólogo.

Publicado por Elizabete Possidente

Com uma trajetória multifacetada e dedicada à saúde mental, sou uma médica psiquiatra, cuja jornada profissional é marcada por conquistas e contribuições significativas. Formei-me em Medicina em 1994 e desde então tenho me destacado em diversas áreas da psiquiatria. Minha jornada acadêmica inclui uma residência no Instituto de Psiquiatria da UFRJ, onde aprimorei minhas habilidades e conhecimentos de 1995 a 1996. Prosseguindo em minha formação, obtive o título de Mestre pelo Departamento de Psiquiatria do mesmo instituto, entre os anos de 1997 e 1999, consolidando-me como uma profissional especializada e comprometida com a excelência em minha área de atuação. Ao longo de minha carreira, desempenhei papéis fundamentais em diferentes instituições e contextos. Como supervisora de psiquiatria pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, contribuí para o desenvolvimento e aprimoramento de políticas públicas voltadas à saúde mental. Minha expertise como médica perita em psiquiatria no Manicômio Heitor Carrilho e posteriormente na Vara de Execuções Penais da Secretaria Estadual de Justiça evidencia meu compromisso com a justiça e o bem-estar dos pacientes. Além disso, atuei como médica psiquiatra e perita em psiquiatria pelo Ministério da Defesa, tanto no Hospital Central do Exército quanto pela Auditoria Militar, onde minha competência e dedicação foram reconhecidas e valorizadas. Minha influência na comunidade médica estende-se também ao âmbito acadêmico, com participação ativa em congressos nacionais e internacionais, onde compartilho meu conhecimento e experiência com outros profissionais da área. Como autora do livro "Para Pais e Mães Preocupados: Cuidando da Saúde Mental dos Pequenos", publicado pela editora Viseu, demonstro meu compromisso em disseminar informações relevantes e acessíveis sobre saúde mental para um público amplo. Com uma sólida base acadêmica, vasta experiência prática e um compromisso contínuo com a atualização e aprimoramento profissional, sou uma referência respeitada na área da psiquiatria, dedicada a promover o bem-estar e a qualidade de vida de meus pacientes e da comunidade em geral.

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