Autora: Elizabete Possidente
A minissérie Adolescência, da Netflix, trouxe à tona discussões fundamentais sobre o mundo dos jovens e a desconexão crescente entre pais, educadores e adolescentes. Inspirada em casos reais de violência juvenil, a trama acompanha Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola, também vítima de bullying e exclusão. No entanto, mais do que o crime em si, o que impacta na narrativa é a ausência de vínculos emocionais genuínos entre Jamie e os adultos ao seu redor. Pais, professores, terapeutas e policiais parecem viver em um mundo onde a escuta e o cuidado se tornaram escassos, enquanto a tensão se acumula sem encontrar espaço para expressão. Em um cenário dominado por algoritmos, mensagens cifradas e influencers misóginos, a série provoca uma reflexão urgente: o que estamos deixando de ver?
A recepção da série entre os pais revelou algo inquietante: muitos perceberam que desconhecem profundamente o que seus filhos pensam, sentem e consomem na internet. Em consulta, relataram espanto ao se darem conta de que não entendem os códigos, emojis e abreviações usados pelos adolescentes. Esse distanciamento não se restringe ao mundo digital; reflete uma desconexão emocional crescente dentro das próprias famílias.
Um dos personagens centrais da série é um policial, pai de um adolescente, que só percebe o quanto desconhece a vida do filho quando decide escutá-lo de verdade. Ele adota uma postura de evitação de conflitos, delegando decisões difíceis à esposa e mantendo-se distante das questões emocionais do filho. Esse comportamento é um reflexo comum da parentalidade moderna, onde a culpa e o medo de impor limites fazem com que muitos pais oscilem entre permissividade excessiva e autoritarismo ineficaz. A dificuldade de encontrar um equilíbrio entre acolhimento e autoridade é um dos maiores desafios da educação na era digital.
Escola: espelho da desorientação adulta
A desorganização emocional dos adultos também se reflete no ambiente escolar. A série retrata uma escola caótica, onde os alunos não se respeitam e os professores perderam a autoridade. As relações são marcadas por tensão e hostilidade, enquanto os jovens criam laços subterrâneos em espaços digitais radicais.
Um dos aspectos mais impactantes é a naturalização do uso irrestrito de celulares. As ameaças, os códigos de exclusão e os vínculos violentos se articulam nessas ferramentas, muitas vezes sem que pais e educadores percebam. Esse fenômeno revela uma impotência institucional preocupante: a proibição formal contrasta com a incapacidade real de mediar e orientar o uso dessas tecnologias, expondo a crise mais ampla da autoridade adulta.
A série também evidencia como padrões de violência simbólica e emocional se perpetuam de maneira sutil. O pai de Jamie, por exemplo, foi vítima de violência física na infância e, sem perceber, reproduziu com o filho a mesma dinâmica de repressão emocional. Ele tentou moldar Jamie como um menino “normal”, forçando-o a praticar esportes e ignorando suas habilidades sensíveis, como o desenho. Essa negação do afeto e da escuta perpetua um ciclo de distanciamento que pode gerar profundas sequelas emocionais.
O apagamento feminino também é um elemento forte na trama. A mãe de Jamie é retratada como uma presença silenciosa, absorvida pelo cansaço e sobrecarga emocional. Essa invisibilidade remete à análise de Byung-Chul Han sobre a ‘sociedade do cansaço’, onde a exaustão transforma a presença feminina em um suporte funcional, sem espaço para a expressão autêntica do cuidado.
Para onde vamos?
Ao longo das últimas semanas, a discussão sobre Adolescência tem sido constante. A série expõe a falência das relações entre adultos e adolescentes e nos leva a refletir sobre a necessidade de uma parentalidade mais consciente e conectada.
Houve um tempo em que os pais se preocupavam com seus filhos ao saírem para festas ou conversarem com amigos na praça do bairro. Hoje, no entanto, muitos sentem uma falsa segurança ao verem os filhos em casa, sem perceberem que estão se perdendo para as redes sociais, expostos a influências nocivas e dinâmicas de exclusão silenciosa. O impacto desse afastamento é evidente no aumento dos casos de ansiedade, depressão e outras condições psiquiátricas entre adolescentes.
A solução passa por construir laços mais fortes dentro de casa, valorizar a escuta ativa e estabelecer um verdadeiro diálogo intergeracional. Mais do que nunca, é essencial que pais e educadores acompanhem de perto a vida dos adolescentes, compreendam seus desafios e estejam presentes de maneira ativa e responsiva.
A pergunta que a série nos deixa é: o que estamos dispostos a fazer para reencontrar nossos jovens antes que seja tarde demais?
