“Meu filho não aceita mudanças”: como lidar com a rigidez no autismo

Autores: Elizabete Possidente e Giuliana Possidente

Uma das maiores dificuldades relatadas pelos pais de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é a rigidez diante de mudanças. Pequenas alterações na rotina como, trocar o caminho da escola, mudar o horário de uma atividade ou interromper algo que a criança está fazendo podem gerar grande sofrimento, crises ou resistência intensa.

Antes de tudo, é importante entender: isso não é teimosia. Para muitas crianças com TEA, a previsibilidade traz segurança. A mudança, por outro lado, pode ser vivida como algo ameaçador.

 Por que a mudança é tão difícil?

A rigidez está relacionada a alguns aspectos comuns no TEA:

  • Dificuldade em antecipar o que vai acontecer
  • Necessidade maior de previsibilidade
  • Ansiedade diante do inesperado
  • Processamento mais lento de novas informações

Ou seja, a mudança não é só incômoda, ela pode ser desorganizadora.

 O erro mais comum dos pais é tentar impor mudanças de forma brusca, esperando que a criança “aprenda a lidar” e isso costuma piorar a situação. Isso aumenta a ansiedade e reforça a resistência.

Lembrando que a flexibilidade que desejamos, não se ensina com confronto, mas com segurança e preparação.

Estratégias práticas que ajudam:

  • Antecipe sempre que possível
  • Avise com antecedência sobre mudanças:

 “Daqui a 10 minutos vamos sair”

 “Hoje o caminho será diferente”

  • Se necessário, repita a informação
  • Use recursos visuais: muitas crianças compreendem melhor com apoio visual:

 Rotinas desenhadas ou escritas

 Quadros com sequência do dia

 Imagens para explicar o que vai acontecer

  • Faça transições graduais
  • Evite mudanças abruptas. Sempre que possível:

 Introduza a mudança aos poucos

 Mantenha outros elementos da rotina iguais

  • Dê tempo de processamento após comunicar uma mudança, aguarde. Algumas crianças precisam de mais tempo para entender e aceitar o que foi dito.
  • Ofereça pequenas escolhas

Dar sensação de controle ajuda a reduzir a resistência:

 “Você quer ir de tênis azul ou preto?”

 “Quer sair agora ou em 5 minutos?”

  • Nomeie o que está acontecendo.Ajude a criança a entender:

 “Eu sei que é difícil mudar”

 “Você queria continuar, né?”

 Validar não significa ceder, mas **mostrar compreensão.

  • Cuide do sono sempre: sono ruim, fome ou excesso de estímulos aumentam muito a dificuldade com mudanças.

E quando a crise acontece?

Mesmo com preparo, crises podem ocorrer. Nesses momentos:

  • Mantenha a calma
  • Reduza estímulos
  • Evite explicações longas
  • Priorize segurança

 Depois da crise, não é o momento de ensinar, é momento de acolher.

O objetivo não é eliminar a rigidez.

A rigidez faz parte do funcionamento da criança. O objetivo não é “tirar isso dela”, mas ampliar gradualmente sua capacidade de lidar com mudanças, respeitando seu tempo.

Seu filho não resiste à mudança porque quer desafiar você, ele resiste porque precisa de previsibilidade para se sentir seguro.

 

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