Autora: Elizabete Possidente e Giuliana Possidente
Muitos pais de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) se perguntam por que o filho se incomoda tanto com coisas aparentemente simples: um barulho comum, uma etiqueta na roupa, uma luz mais forte. A resposta está na sensibilidade sensorial, uma forma diferente de perceber o mundo.
Para essas crianças, o que para nós é neutro pode ser intenso, desconfortável ou até doloroso.
O que é a sensibilidade sensorial?
É uma alteração na forma como o cérebro processa estímulos como:
- Sons
- Luzes
- Texturas
- Cheiros
- Temperaturas
A criança pode ser:
- Hipersensível (sente demais)
- Hipossensível (sente menos e busca estímulos)
E isso pode variar ao longo do dia ou conforme o ambiente.
Som: quando o mundo fica alto demais
Barulhos que passam despercebidos para a maioria podem ser extremamente incômodos: aspirador, secador de cabelo, liquidificador, ambientes cheios (festas, shoppings), gritos ou vozes altas, e outros.
A criança pode:
- Tapar os ouvidos
- Evitar certos lugares
- Ficar irritada ou entrar em crise
Luz: excesso de estímulo visual
Luzes fortes ou piscando podem causar grande desconforto que podem ser encontradas em supermercados, salas muito iluminadas, telas em excesso e determinados anúncios/filmes.
Algumas crianças:
- Evitam olhar diretamente
- Preferem ambientes mais escuros
- Ficam agitadas sem motivo aparente
Textura: o corpo sente tudo
Roupas, etiquetas, tecidos ou até o toque podem incomodar e podem se manifestar como:
Recusa em usar certas roupas
Incômodo com etiquetas ou costuras
Dificuldade com corte de cabelo ou escovação
Não é “frescura”. É uma sensação real e intensa.
A sobrecarga sensorial pode levar a:
- Irritabilidade
- Evitação
- Crises)
- Agitação ou fuga
Muitas vezes, o comportamento é apenas a forma que a criança encontra para dizer: “está demais para mim”.
O que ajuda na prática
1. Observe os padrões
Perceba o que desencadeia desconforto:
- Quais ambientes?
- Quais estímulos?
- Em que momentos do dia?
2. Adapte o ambiente
- Reduza ruídos quando possível
- Prefira iluminação mais suave
- Evite excesso de estímulos simultâneos
3. Use recursos de apoio
- Fones abafadores de ruído
- Roupas mais confortáveis
- Objetos que ajudam a regular (como itens táteis)
4. Antecipe situações difíceis
Explique antes:
“Vai ter barulho, mas vamos ficar pouco tempo”
“Se incomodar, você pode me avisar”
5. Valide a experiência
“Eu sei que esse barulho incomoda você” faz a criança se sentir compreendida e isso reduz a angústia.
Nem tudo precisa ser evitado.
O objetivo não é isolar a criança de todos os estímulos, mas ajudá-la a lidar com eles de forma gradual e segura.
Com apoio adequado, muitas crianças ampliam sua tolerância ao longo do tempo.
Saiba que o seu filho não está exagerando, ele está sentindo algo que você não sente da mesma forma.
