Você precisa de um psiquiatra?

Ontem atendi um familiar de uma paciente que já se trata há anos. Veio ao consultório para “tomar satisfações”.
De uma forma muito deselegante, ele descobriu que a sua mãe, uma senhora de quase cinquenta anos, estava em tratamento comigo para diversas queixas de humor e sintomas físicos há três anos. Ela mora com o esposo e trabalha normalmente. Me procurou por indicação de um amigo do trabalho porque vivia se queixando de diversos sintomas físicos. Resultados de exames não justificavam essas queixas.
Iniciou tratamento medicamentoso, e aos poucos , todos os sintomas melhoraram. Depois de cerca 30 meses, foi reduzida gradativamente a medicação, com orientação qualquer dúvida fazer contato. 
Nesse período, novamente teve uma recaída de sintomas físicos, quando foi orientada a fazer contato comigo em caso de qualquer intercorrência. Qual não foi minha surpresa quando surpreendida por esse familiar, que me acusou de “charlatanismo” por querer deixar a sua mãe dependente de remédio, portando artigos não científicos, de autores que combatem a Psiquiatria e a Psicologia conhecidamente de forma oportuna e baseados em crenças pessoais. Artigos que prestam um desserviço à população que está doente e se inocentemente acredita neles. 
Estamos lidando com especialidades que foram criadas sustentadas  pela Ciência. Falamos de doenças que tem todo o substrato neuroanatomico estudado, definido pelo Código Internacional de Doença (CID) e usado Pela Organização Mundial de Saúde (OMS). 
O familiar não veio para conversar ou sanar dúvidas, a intenção era insultar, não especificamente minha pessoa, mas qualquer intervenção á Saúde Mental.
Essa situação me fez refletir e me lembrar um artigo que li em janeiro deste ano, que circulou na mídia, escrito pela advogada e professora universitária Ruth Manus, com o título “Jura que precisa de um psicólogo?”. 
Segue abaixo o texto e o link: 

 Jura que você precisa de um psicólogo?
Até quando vamos ter que explicar que ter um psicólogo ou ter um psiquiatra é algo absolutamente normal?
Foi numa festa. Estava conversando com alguns amigos e comentei a respeito de algo que a minha psicóloga havia me dito. Um deles arregalou os olhos e disse “você tem uma psicóloga?”. Respondi tranquilamente que sim e perguntei o porquê do espanto. Ele disse que, ao ler meus textos, eu sempre pareci uma pessoa muito bem resolvida e que nunca imaginou que eu precisasse de terapia.
Acho que todo mundo que tem um psicólogo, um psiquiatra ou qualquer tipo de terapia de apoio já se deparou com uma situação dessas. Muitos se surpreendem, muitos ainda carregam velhos estigmas, acham que é frescura, acham que é exagero. Chega a ser engraçado nos depararmos com esse tipo de pensamento em 2017.
É curioso (e satisfatório) ver como todos os cuidados com o corpo estão sendo cada vez mais valorizados: exames preventivos, alimentação saudável, exercícios físicos. As pessoas têm medo de ficarem feias, velhas e doentes. Eu também tenho. Por isso nos matriculamos na academia, compramos vegetais orgânicos, reduzimos as frituras, fazemos exame de sangue, usamos filtro solar. Mas muita gente acha que isso basta. Que corpo saudável é vida saudável.

Mas nem sempre é. A cabeça faz parte do nosso corpo, as ideias fazem parte da nossa vida, as lembranças fazem parte da nossa história e os sentimentos fazem parte da gente. Não é só o neurologista quem cuida da cabeça, nem é só o cardiologista quem cuida do coração. Psicólogos e psiquiatras não são nem um pouco menos importantes do que os demais. Sim, custa dinheiro, como tudo na vida. Mas não tenho dúvidas de que, no meu caso, é um dinheiro absolutamente bem gasto.
Ainda há quem pense que é preciso estar deprimido ou descontrolado para procurar este tipo de apoio. Mas não. Você pode estar ótimo. Mas pode ficar ainda melhor. Nós não fazemos ideia de quanta coisa a gente deixa mal resolvida no nosso caminho, nem do quanto elas influenciam as atitudes que temos hoje. Todas as vezes que dizemos “eu sou assim” para justificar nossos defeitos, é importante sabermos que poderíamos não ser assim. Poderíamos ser melhores e mais felizes. É, de fato, algo viável.
Mas é isso. Ninguém fica chocado quando alguém diz que vai gastar milhares de reais para colocar silicone. Ninguém acha absurdo que um homem faça um implante capilar ou que uma mulher faça um tratamento para celulite. De fato, eu também acho que tudo o que faz as pessoas se sentirem melhores é válido. Mas fazer terapia ainda causa espanto. Terapia ainda é vista por muitos como sinal de fraqueza, de segredos ou de desequilíbrio.
Eu digo com toda certeza: só consigo escrever- e ser julgada e tomar porrada e ser criticada e seguir em frente- toda quarta e todo domingo porque tenho apoio. Só aprendi a escrever sobre sentimentos porque me habituei a falar do meus. Só consegui lidar bem com o passado quando me ajudaram a afastar fantasmas escondidos. E eu não tenho a menor vergonha disso, assim como acho que ninguém deveria precisar ter.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: