Vício em Pornografia

Houve um aumento nos últimos vinte anos de pessoas com vício em
pornografia online.
Sempre houve interesse pelos jovens em ver fotos de nudez e de vídeos
pornôs. Antigamente, o jovem comprava revistas como “Playboy” e
atendia a sua curiosidade, vendo e revendo diversas vezes as fotos. Usava
a sua imaginação para diversos cenários fantasiosos durante a
masturbação. O mesmo ocorria com filmes “pornô” que assistia,
rebobinava a fita e fantasiava. O estímulo que o jovem tinha para obter o
orgasmo era similar.
A facilidade de acesso à internet em tablets, laptops e smartphones
aumentou o vício em pornografia por duas razões. A primeira razão seria
a facilidade de se ter privacidade, mesmo se em viagem ou ambiente de
trabalho. Antes o computador tinha um local de destaque na casa, o que
dificultava o uso para esse fim. O outro motivo é de que a pessoa pode,
a cada click, mudar a foto ou o vídeo com diferentes estímulos, o que não
o provoca desinteresse pela repetição. Em cinco minutos, ele pode ter
vivido dezenas de estímulos diferentes. Nesses cinco minutos, ele pode ter
tido mais estímulos de que já teve com qualquer outra pessoa no passado,
mesmo tendo sido sexualmente bem ativo.
O que temos vendo na prática são jovens entre 18 e 25 anos se viciando
em pornografia online. Esses jovens acabam desenvolvendo disfunções
sexuais, como redução da libido e disfunção eréctil. Buscam clínicos e
urologistas, que descartam qualquer alteração física ou hormonal que
justifique a queixa.
Nesse grupo de pacientes devemos investigar o padrão de masturbação e
quanto consome de pornografia online. Ao conversar com eles reclamam:
“Nada mais me estimula”; “Eu gosto e quero ter com a minha namorada,
mas não rola”, “Doutora, ela é linda e faz de tudo para me agradar. O
problema sou eu”.
Para entender o porquê da dependência de pornografia online,
primeiramente precisamos compreender o desejo sexual. O desejo ou
interesse sexual desperta a liberação do neurotransmissor dopamina. O
ápice da liberação da dopamina acontece durante o orgasmo. A dopamina
regulariza o ciclo de recompensa no cérebro, é responsável pelo prazer. Se
não bem regulada, facilita a compulsão (vício). A dopamina não é liberada
apenas como prazer durante uma história sexual, mas também por
diferentes estímulos prazerosos. Por exemplo, quando comemos um
chocolate, nos sentimos bem porque houve liberação de dopamina.
Quando comemos alface, por mais que gostemos de salada, há uma
liberação bem menor de dopamina. Por isso é muito mais fácil
desenvolver compulsão por chocolate do que por alface. Voltando para a
esfera sexual, quando há o estímulo sexual, vem a liberação da dopamina,
e em seu auge, ocorre com o orgasmo.
A dopamina é mais facilmente liberada com novos estímulos dentro da
sua área de interesse. Ou seja, quando se vê a mesma foto ou o mesmo
filme repetidas vezes o estímulo será menor.
O seu cérebro se acostuma rapidamente aos estímulos. Cada vez mais
pede novos. Quando mais a pessoa usa mais aparece a necessidade por
novos estímulos, em busca do prazer. Quanto mais esse circuito de
liberação de dopamina é estimulado mais o cérebro pede novos impulsos
para continuar vivenciando o prazer.
Existe outro empurrão para o vício: com esse estímulo rápido do ciclo de
recompensa, provocado pelo vídeo pornográfico ou foto, você acaba
apresentando deficiência de dopamina em outras situações de sua vida.
Situações que antes lhe davam prazer já geram desinteresse. A
desmotivação em outras áreas de sua vida faz com que cada vez mais use
a pornografia online em buscar prazer. Nessa fase, o viciado em
pornografia começa a usar alguns argumentos de defesa para não buscar
ajuda, tais como “não faço mal a ninguém”, “é melhor que usar pessoas
como muitos dos meus amigos fazem”, “tive um dia muito ruim no
trabalho”, “mereço essa recompensa” e assim vai. Quando mais estímulo
há nessa área cerebral, maior a neuroplasticidade dessa região, com
facilitação do impulso elétrico para esse circuito. Com isso o cérebro vai
reprogramando o seu funcionamento para buscar a pornografia online,
recompensando com a liberação de dopamina.
Sem tratamento, cada vez mais o seu cérebro vai buscar maiores
estímulos para se conseguir o prazer rápido. Quanto mais viciado, mais
tolerante fica ao estímulo. Funciona como um dependente químico que se
acostuma com determinada droga, desenvolve certa tolerância, e passa a
buscar drogas mais pesadas para ter o mesmo efeito de antes.
É comum iniciar o vício com fotos e vídeos com pessoas próximas da
beleza socialmente comum e com o tempo buscarem cenas de violência,
com animais e de outra orientação sexual. Apesar de relatarem que
acham muito esquisito e que não teriam coragem de praticar esse ato
sexual, só conseguem se masturbar com esse estímulo bizarro.
Esses pacientes passam a apresentar angústia, disfunção eréctil, redução
da libido diante de um estímulo considerado “normal” do parceiro sexual,
culpa por precisar assistir filmes que não refletem sua orientação ou
interesse sexual, dificuldade de concentração, falta de motivação e prazer
na vida. Normalmente associa quadro de depressão e ansiedade.
Temos que estar atentos ao vício em pornografia sempre que alguém
mostre esses sintomas. A ausência de reconhecimento do seu vício e
vergonha dificultam o relato espontâneo ao médico ou psicólogo.

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