Psicofobia é o termo que trata atitudes preconceituosas e/ou discriminatórias contra os deficientes e portadores de doenças mentais. Esse termo Psicofobia é crime previsto em lei e está tramitando no Senado Federal no projeto de lei 74/2014 de autoria do senador Paulo Davim que torna a Psicofobia um crime, assim como a Homofobia e o Racismo.

Infelizmente, em pleno 2020, ainda me deparo com pacientes que tiveram recorrência clínica diante dahumilhação de seu transtorno ou discriminação por seu tratamento psiquiátrico. Fico mais entristecida quando o preconceito é proveniente de profissionais da área dasaúde que tem obrigação de conhecer a doença e ser defensor da psicofobia se tornar lei. Todos deveríamos saber que saúde não engloba somente a doença física e sim diversas nuances do psicológico e emocional que por si só já são aspectos da saúde global, mas também são capazes de agravar ou até mesmo desencadear alterações físicas.

A seguir, destacarei alguns exemplos que ocorreram recentemente no meu consultório.

Uma paciente em tratamento de ansiedade generalizada com ataques de pânico e episódios de falta de ar recorrentes. Solicitava auxílio de seu médico clínico que respondia ser tudo fantasia de sua cabeça e ignorava suas queixas. Os dias foram piorando e quando resolveu entrar em contato comigo, percebi que mal conseguia falar ao telefone devido a tamanho desconforto respiratório. Encaminhei-a prontamente para a emergência onde fora diagnosticada franca crise de asma. Seu sofrimento poderia ter sido poupado com um olhar mais atento de seu clínico.

Outra de minhas pacientes vinha sofrendo de depressão pós parto por tempo prolongado, mas seu psicólogo e homeopata afirmavam ser um momento comum e indicaram evitar a procura por um psiquiatra, pois apenas a entupiria de calmantes e prejudicaria o cuidado de seubebê. Não consideraram a severidade de sua situação. 

Um paciente teria recebido indicação para um procedimento cirúrgico inesperado. Além de ter sido pego de surpresa com a notícia, foram utilizados termos e expressões médicas que não compreendia, deixando-o ainda mais atordoado. O profissional que estava acompanhando relacionou a dificuldade de entendimento do paciente a sua doença psiquiátrica, não levando em consideração impacto de uma notícia ruim e a forma como foi contada a ele. 

Outro paciente que se encontra estável há anos com a medicação e que com a pandemia ficou mais sedentária e passou a comer mais bobagens apresentou aumento de insulina em seus exames de rotina. Foi ao clínico que sem conhecer sua prescrição e história clínica associou imediatamente o desequilíbrio ao remédio psiquiátrico.

Também quase diariamente escuto de pacientes que outros especialistas questionam o uso da medicação prescrita pelo psiquiatra. Esses profissionais dizem que o paciente “está bem” e que não há necessidade de uma medicação contínua, ignorando a possibilidade de sua estabilidade clínica ser graças ao uso do fármaco correto na forma correta. 

A falta de conhecimento sobre doenças psiquiátricas e seus tratamentos junto ao desinteresse em contatar o psiquiatra e a procurar entender a saúde integral de seus pacientes,dificultam muito a nossa prática clínica. Aliado a isso, existe um estigma e preconceito enraizado à visão que muitos têm da Psiquiatria, que deve ser fortemente combatido.

Da mesma forma que não podemos subestimar o sofrimento do paciente com câncer ou da estabilidade de um paciente em uso contínuo de medicamentos, como anti-hipertensivos ou hipoglicemiantes orais, também não podemos descriminar os pacientes que sofrem de alguma doença mental ou que fazem uso regular de anticonvulsivantes, estabilizadores de humor, antidepressivos, entre outros.

Importante nos informar e divulgar a campanha Psicofobia é crime.

Publicado por Elizabete Possidente

Formou -se em Medicina em 1994. Foi médica residente do Instituto de Psiquiatria da UFRJ de 1995 a 1996. Defendeu Mestrado em 1997 a 1999 pelo Departamento de Psiquiatria do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Durante muitos anos foi supervisora de Psiquiatria pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. Foi médica perita em Psiquiatria no Manicômio Heitor Carrilho pela Vara de Execuções Penais da Secretaria Estadual de Justiça. Foi médica Psiquiatra e perita em Psiquiatria pelo Ministério da Defesa no Hospital Central do Exército e pela Auditoria Militar. Foi médica Psiquiatra e chefe do serviço de Saúde Mental da Policlínica Newton Alves Cardoso. Tem diversos artigos publicados em revistas médicas. Diversos trabalhos publicados em congressos nacionais e internacionais. Está sempre se atualizando e participando de eventos médicos nacionais e internacionais em Psiquiatria.

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