Autora: Elizabete Possidente e Giuliana Possidente

Hoje no jornal O Globo saiu uma reportagem com título “Ligados na Tomada: jovens buscam droga de TDAH para ter mais foco, uso traz riscos”. Vivemos um momento em que muitas pessoas apenas através do título já se sentem totalmente informadas pela reportagem e saem compartilhando com comentários que não condizem com a realidade e nem com o teor do artigo.  Considero isso bem perigoso.

A medicação Venvanse, que também existe no Brasil com o nome comercial Juneve, se trata de uma medicação segura e aprovada inclusive para crianças com TDAH, a partir dos seis anos de idade. É uma droga estimulante do sistema nervoso central (SNC), utilizada para tratamento de TDAH principalmente onde a causa dos sintomas é uma hipoativação do lobo pré-frontal.

A ANVISA autorizou a venda do Venvanse para uso pediátrico e adulto para pacientes diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade com controle médico, o que considero estar toda a chave da discussão. É um remédio “tarja preta”, que precisa de acompanhamento ambulatorial com intervalos determinados por seu psiquiatra ou neurologista. O laboratório que fabrica o Venvanse também conseguiu a aprovação para Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP) em bula, para o Juneve.

O mal uso dessa substância, como o de qualquer medicamento, pode ocasionar malefícios para a saúde do indivíduo. As pessoas que usam medicamentos por conta própria ou prescritos por profissionais não familiarizados com a substância assumem um risco importante para a própria saúde física e mental. Existem estudos clínicos importantes com indicações muito bem definidas, para TDAH ou TCAP, mas não deveria ser utilizada para outros quadros sem comprovação científica clara, como por exemplo emagrecimento ou estimulante.

Atualmente há um grande interesse “concurseiros”, vestibulandos, empresários e trabalhadores da área de tecnologia e mercado financeiro, que não tem a doença neuropsiquiátrica. Como não conseguem a receita médica por não ser portador dessa patologia, eles buscam meios “alternativos”, como vendas ilegais pela internet.

Vemos muitos comentários na rede alardeando efeitos positivos de aumento de performance, energia e redução de apetite. Nenhum desses comentários citam que é necessária receita médica e acompanhamento profissional. Podemos lembrar de um tempo passado em que muitos acreditavam que a cocaína poderia ser inofensiva, por exemplo, hoje sabemos que não é bem assim.

Eu também observo um outro problema na venda desse medicamento, no próprio balcão das farmácias, aprovado pelo nosso governo atual. Com a situação da pandemia do Covid – 19 o Diretor-Presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) autorizou mudanças nas regras de prescrição e dispensação dos medicamentos controlados.  A medida foi determinada por meio da RDC 357/20, publicada no Diário Oficial da União (D.O.U.) de 24 de março de 2020 e foi renovada até maio de 2023. 

Uma das alterações é o aumento da quantidade máxima de medicamentos permitidos na venda numa receita de controle especial. Inicialmente foi autorizado que, para as receitas emitidas antes da publicação dessa RDC 357/20, quando dentro do prazo de validade, teria a farmácia a autorização de vender uma quantidade superior ao que foi prescrito pelo médico, seguindo a quantidade definida descrita numa tabela. Na prática como isso ocorre?

Se o médico dá uma receita para uma caixa de Venvanse, o balconista pode vender até 3 caixas desse medicamento com essa mesma receita. Ou seja, o médico especialista estipulou uma quantidade de medicamento, determinando o tempo em que o paciente deve retornar para avaliação, e esse tempo é triplicado pela farmácia, sem pensar nas consequências desse ato. Isso um aumento de dosagem por conta própria, o não retorno ao médico que deveria acompanhar a evolução do quadro e até repassar o medicamento para outros que não tem indicação para tomá-lo.  Sem falar na facilidade que comerciantes de má fé passam a ter para um “lucro extra” em suas vendas. Agora supondo que você não aceita a oferta de comprar as três caixas, compra apenas uma caixa porque você entendeu que a medicação faz parte de um tratamento médico e que rigorosamente deve ter avaliação no tempo recomendado pelo profissional. Caso você não assine no verso e declare por escrito que levou apenas uma caixa, está aberta a possibilidade de venda de duas caixas para alguém que não possui a receita médica.

Já atendi pacientes que faziam uso por conta própria de uma quantidade absurda dessa medicação, sem nunca ter sido prescrito por um médico. Eles farmácias ou determinados balconistas de referência para obterem medicamentos que precisam de receita controlada.

O Venvanse é um medicamento bastante seguro, quando bem indicado, para as patologias as quais essa medicação foi autorizada pelos estudos clínicos em todo o mundo.

Segue abaixo o link da reportagem do O Globo:

https://oglobo.globo.com/saude/medicina/noticia/2022/07/venvanse-cresce-o-consumo-do-remedio-entre-jovens-para-melhorar-a-concentracao-entenda-os-graves-riscos-a-saude.ghtml

Publicado por Elizabete Possidente

Com uma trajetória multifacetada e dedicada à saúde mental, sou uma médica psiquiatra, cuja jornada profissional é marcada por conquistas e contribuições significativas. Formei-me em Medicina em 1994 e desde então tenho me destacado em diversas áreas da psiquiatria. Minha jornada acadêmica inclui uma residência no Instituto de Psiquiatria da UFRJ, onde aprimorei minhas habilidades e conhecimentos de 1995 a 1996. Prosseguindo em minha formação, obtive o título de Mestre pelo Departamento de Psiquiatria do mesmo instituto, entre os anos de 1997 e 1999, consolidando-me como uma profissional especializada e comprometida com a excelência em minha área de atuação. Ao longo de minha carreira, desempenhei papéis fundamentais em diferentes instituições e contextos. Como supervisora de psiquiatria pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, contribuí para o desenvolvimento e aprimoramento de políticas públicas voltadas à saúde mental. Minha expertise como médica perita em psiquiatria no Manicômio Heitor Carrilho e posteriormente na Vara de Execuções Penais da Secretaria Estadual de Justiça evidencia meu compromisso com a justiça e o bem-estar dos pacientes. Além disso, atuei como médica psiquiatra e perita em psiquiatria pelo Ministério da Defesa, tanto no Hospital Central do Exército quanto pela Auditoria Militar, onde minha competência e dedicação foram reconhecidas e valorizadas. Minha influência na comunidade médica estende-se também ao âmbito acadêmico, com participação ativa em congressos nacionais e internacionais, onde compartilho meu conhecimento e experiência com outros profissionais da área. Como autora do livro "Para Pais e Mães Preocupados: Cuidando da Saúde Mental dos Pequenos", publicado pela editora Viseu, demonstro meu compromisso em disseminar informações relevantes e acessíveis sobre saúde mental para um público amplo. Com uma sólida base acadêmica, vasta experiência prática e um compromisso contínuo com a atualização e aprimoramento profissional, sou uma referência respeitada na área da psiquiatria, dedicada a promover o bem-estar e a qualidade de vida de meus pacientes e da comunidade em geral.

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