Autora: Elizabete Possidente
Quando você toma zolpidem no momento em que já está preparado para dormir, o efeito sedativo do fármaco se soma à “pressão do sono” que seu organismo já acumulou ao longo do dia, de modo que você desliza rapidamente para um sono natural e contínuo. Nesse cenário, não ocorre aquele estado intermediário de “cérebro dormindo e corpo acordado” que caracteriza o sonambulismo ou outros comportamentos automáticos, porque você transita de forma coordenada de vigília para sono profundo.
Em contraste, se você toma o zolpidem sem estar com sono (por exemplo, sentado na cama, lendo no celular, vendo TV), o remédio já começa a se ligar aos receptores GABA‑A (especialmente os que contêm a subunidade α1), bloqueando parcialmente a atividade excitatória em várias áreas do cérebro. O resultado é uma dissociação:
Inibição dos centros de alerta (tálamo, córtex pré‑frontal)
→ A sensação subjetiva de sonolência, “cérebro embaralhado”, dificuldade de iniciar pensamentos coerentes.
Bloqueio parcial das vias motoras automáticas (gânglios da base, cerebelo)
→ Manutenção de algum nível de tônus muscular e capacidade de executar ações simples, mas sem o controle consciente pleno.
Isso faz com que você “fique acordado” (ainda consegue reagir a estímulos, falar, caminhar) mesmo com o “cérebro sedado” — o clássico estado de sonambulismo farmacológico. Por isso a recomendação é nunca tomar o comprimido se não for dormir imediatamente, em ambiente propício ao repouso.
É a junção do remédio com o “sono prontinho” que garante um início de sono limpo, sem automações.
Tomar sem sono gera dissociação: o GABA faz seu cérebro “desligar” parcialmente, mas não o suficiente para completar a transição ao dormir.
Tolerância anterior reduz — não elimina — o risco, mas não é suficiente se o comprimido for tomado fora da hora de repouso.
Higiene do sono: ambiente escuro, sem telas, sem cafeína nem estímulos; isso potencializa o efeito natural do zolpidem e evita os “episódios automatizados”.
Em suma, o zolpidem só “devolve” um sono natural quando você já está em condições fisiológicas de dormir. Fora desse contexto, ele apenas embota o cérebro, deixando você lúcido o bastante para agir — o que chamamos de sonambulismo farmacológico.
