Família e a Doença Mental na abordagem da Minissérie “I Know This Much is True”

Há pouco tempo lançada pela HBO, a minissérie “I Know This Much is True”, inspirada no livro homônimo publicado em 1998 por Wally Lamb, me levou à certas considerações.

A série gira em torno da vida de dois irmãos gêmeos, um deles com diagnóstico de esquizofrenia e o outro baseia sua vida no suporte ao irmão. Através de vários acontecimentos dolorosos e realistas acompanhamos a relação desses irmãos.

A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica crônica que geralmente se inicia na adolescência, mas pode ocorrer até os 25 anos. Nesse momento é normal observar que reações conhecidas ficam estranhas e desajustadas, sem demonstração de emoção ou reações esperadas. É comum comportamentos como impressão constante de que algo está errado, que há pessoas desejando sua morte ou que é um ser especial que recebe mensagens de Deus ou de alguma força superior em que acredita, por exemplo. Podem ter alucinações auditivas e táteis, acompanhadas de diversas percepções errôneas do seu redor. O doente realmente acredita nisso, o que provoca um sofrimento muito grande. Diante disso, pode levar a automutilação, agressão à terceiros ou danos materiais, na tentativa de obedecer à “voz” ou parar as perturbações em sua mente. Pode também levar a suicídio pela intensa tristeza que vivem ou por não verem outra saída para esse martírio vivido.

Para quem deseja entender e refletir um pouco sobre a esfera mental dessa doença a minissérie levanta diversas questões. Vamos a elas.

Gêmeos deveriam estudar na mesma turma?

Não existe uma regra definindo o certo ou errado. Depende por exemplo da idade dos pacientes ou de como a família atua na criação desses gêmeos. Quando entram na fase pré-escolar / maternal, existe uma tendência a se manter na mesma turma para melhor adaptação da criança, já que geralmente é o primeiro momento de separação dos pais. Já em idade mais avançada, dos 6 a 9 anos, se a família quer estimular a individualidade, características pessoais e independência, estudar em turmas diferentes seria o mais indicado.

No exterior a tendência é separação desde pequenos. Culturalmente as crianças são condicionadas para a individualidade e responsabilidades. Sabem desde pequenos que independente do que escolherem mais velhos, o normal é cada um partir para uma faculdade distante de casa.

No Brasil existem poucos estudos sobre o comportamento das famílias com gêmeos e quase nenhum que acompanhe a evolução desses irmãos. Um estudo mais amplo realizado na USP demonstrou que famílias com maior recurso financeiro tendem a valorizar a independência dos gêmeos. Famílias com menos recurso normalmente prefere reforçar o vínculo familiar, valorizando a cumplicidade e amizade entre os irmãos. Devemos levar em conta nesse caso que pela menor disponibilidade de renda influencia em manter os irmãos juntos, pois sabemos que é mais prático e barato irem para a mesma escola e realizarem juntos atividades extraclasse.

Gêmeos que estudam separados apresentam maior segurança, pela valorização de seus gostos e interesses, desvinculando a ideia de que tudo deve combinar com o irmão. Devido ao aumento de autoestima e da independência tendem a ter menor nível de competitividade entre eles, facilitando a relação familiar.  Não são conhecidos como os “gêmeos” pelos professores e amigos e sim pelo próprio nome. Apesar de no início sentirem a separação, existem muitos pontos positivos.

Falando especificamente da série, vemos que os protagonistas são conhecidos como gêmeos, inclusive convivem com uma outra dupla de gêmeos que estudam na mesma turma. A tendência e sempre manter os irmãos próximos, inclusive com os outros dois gêmeos da turma.

A responsabilidade de cuidar do doente deve ser de um indivíduo específico da família, no caso do irmão?

Um irmão deve ser responsável em cuidar do outro?

Na prática, muitas famílias estimulam essa obrigatoriedade. Quando isso ocorre, de tempos em tempos, esse irmão deveria ser beneficiado por assumir essa responsabilidade e assim se sentir valorizado dentro dessa família. O irmão cuidado naturalmente se beneficia com o companheirismo do irmão e por ter sempre apoio em novas atividades. Entretanto o irmão cuidador perde sua liberdade e tempo livre e o irmão cuidado pode criar uma relação de dependência ocasionaria em sequelas na sua vida adulta.

Quando falamos de crianças que convivem com irmão que tem alguma doença crônica, ela pode suprimir suas necessidades à medida que se adapta às mudanças da família, centrada na criança que necessita de cuidados especiais. Essas crianças também podem sentir raiva e sensação de injustiça porque a atenção está voltada para outra criança da casa. Muitos pais acham que os filhos saudáveis estão lidando muito bem com a situação e que adoram cuidar do irmão, a criança pode passar essa imagem pois percebe que precisará dar conta de suas próprias demandas emocionais, acha que não pode dar mais trabalho ou verbalizar qualquer descontentamento, para poupar os pais. Com o tempo essa criança “saudável” vai tendo dificuldade de identificar suas próprias emoções e interesses, que a leva a problematizar todos os tipos de relacionamento, até a vida adulta.

Se são notadas mudanças de seu comportamento nessas crianças, deve-se procurar o mais rápido possível a avaliação de um psiquiatra. Quanto mais cedo esse jovem receber o diagnóstico melhor será a evolução clínica. Normalmente é necessário tratamento com uso de medicamentos, terapia e oficinas de terapia ocupacional para conseguir a estabilidade. Esse paciente precisará sempre do acompanhamento próximo de uma equipe multidisciplinar pois com isso terá apoio para ele e a família, identificará de forma clara os sinais e sintomas da doença e terá adesão ao tratamento medicamentoso.

É necessário paciente e familiar terem consciência que a doença pode apresentar melhora dos sintomas delirantes, mas mesmo assim nunca poderá ser suspenso o uso das medicações de controle. Apesar da maioria dos pacientes não terem a consciência de sua morbidez a equipe e a família devem ter laços estreitados para boa condução do tratamento. 

Publicado por Elizabete Possidente

Formou -se em Medicina em 1994. Foi médica residente do Instituto de Psiquiatria da UFRJ de 1995 a 1996. Defendeu Mestrado em 1997 a 1999 pelo Departamento de Psiquiatria do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Durante muitos anos foi supervisora de Psiquiatria pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. Foi médica perita em Psiquiatria no Manicômio Heitor Carrilho pela Vara de Execuções Penais da Secretaria Estadual de Justiça. Foi médica Psiquiatra e perita em Psiquiatria pelo Ministério da Defesa no Hospital Central do Exército e pela Auditoria Militar. Foi médica Psiquiatra e chefe do serviço de Saúde Mental da Policlínica Newton Alves Cardoso. Tem diversos artigos publicados em revistas médicas. Diversos trabalhos publicados em congressos nacionais e internacionais. Está sempre se atualizando e participando de eventos médicos nacionais e internacionais em Psiquiatria.

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