Ouvi de vários pais comentários de como aguardam ansiosamente a reabertura das escolas e o reingresso de seus filhos à rotina. Porém, antes do retorno às aulas presenciais, temos que observar comportamentos que recentemente apareceram, provocados pela Pandemia, que continuarão caso os responsáveis não atuarem.

Muitos pais enfrentam certa dificuldade em fazer com que seus filhos sigam as novas rotinas acadêmicas, como assistir aulas online, deveres de casa e estudos. Isso vem quase sempre acompanhado de uma crença, quase uma esperança, que como um passe de mágica, ao entrar pelo portão da escola, tudo será resolvido. Eu não teria tanta certeza disso. Os sintomas pouco valorizados de irritabilidade, mudança do padrão de sono, ansiedade, tiques, enurese noturna, depressão, TOC, medos, restrição alimentar e agressividade se mostram claramente e não vão desaparecer de uma hora para outra.

O uso exagerado de jogos eletrônicos, internet e televisão não desaparecerão apenas com o retorno às aulas presenciais. Os conflitos, brigas e agressões que podem ter acontecido durante a quarentena não se resolverão imediatamente quando a professora entrar pela porta da sala de aula.

Vamos a um exemplo prático sobre como a situação pode ter saído do controle. Filhos que não demonstraram compreensão com os pais em momentos que estão trabalhando de casa, não colaboram com cuidados básicos da casa, não demonstram empatia as dificuldades vividas pelos pais, tudo isso pode sinalizar que existem problemas que continuarão mesmo com “o retorno à normalidade” e precisam ser tratados.

Antes de pensar na abertura das escolas, seria muito importante alertar os pais sobre medidas que precisam ser tomadas para tratar alguns desses problemas que surgiram nesse período da pandemia. O prejuízo do aprendizado das aulas online, em sua maioria improvisadas (ninguém estava preparado para o que ocorreu) não será o maior problema, de alguma maneira as boas escolas irão se organizar e recuperar o terreno perdido ao longo dos períodos letivos. A real dificuldade será reconquistar esse aluno, revalorizar a importância dos estudos e dos deveres escolares.

Me preocupam os jovens que não receberam limites bem definidos em seus lares, que precisam que regras básicas sejam reforçadas. Esses jovens, diante de pais fragilizados pelo estresse, por seus temores e conflitos, podem não receber as orientações e fronteiras básicas do comportamento social. Se não respeitam os seus pais, não percebem neles um “Porto Seguro” essencial em suas vidas.

Publicado por Elizabete Possidente

Com uma trajetória multifacetada e dedicada à saúde mental, sou uma médica psiquiatra, cuja jornada profissional é marcada por conquistas e contribuições significativas. Formei-me em Medicina em 1994 e desde então tenho me destacado em diversas áreas da psiquiatria. Minha jornada acadêmica inclui uma residência no Instituto de Psiquiatria da UFRJ, onde aprimorei minhas habilidades e conhecimentos de 1995 a 1996. Prosseguindo em minha formação, obtive o título de Mestre pelo Departamento de Psiquiatria do mesmo instituto, entre os anos de 1997 e 1999, consolidando-me como uma profissional especializada e comprometida com a excelência em minha área de atuação. Ao longo de minha carreira, desempenhei papéis fundamentais em diferentes instituições e contextos. Como supervisora de psiquiatria pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, contribuí para o desenvolvimento e aprimoramento de políticas públicas voltadas à saúde mental. Minha expertise como médica perita em psiquiatria no Manicômio Heitor Carrilho e posteriormente na Vara de Execuções Penais da Secretaria Estadual de Justiça evidencia meu compromisso com a justiça e o bem-estar dos pacientes. Além disso, atuei como médica psiquiatra e perita em psiquiatria pelo Ministério da Defesa, tanto no Hospital Central do Exército quanto pela Auditoria Militar, onde minha competência e dedicação foram reconhecidas e valorizadas. Minha influência na comunidade médica estende-se também ao âmbito acadêmico, com participação ativa em congressos nacionais e internacionais, onde compartilho meu conhecimento e experiência com outros profissionais da área. Como autora do livro "Para Pais e Mães Preocupados: Cuidando da Saúde Mental dos Pequenos", publicado pela editora Viseu, demonstro meu compromisso em disseminar informações relevantes e acessíveis sobre saúde mental para um público amplo. Com uma sólida base acadêmica, vasta experiência prática e um compromisso contínuo com a atualização e aprimoramento profissional, sou uma referência respeitada na área da psiquiatria, dedicada a promover o bem-estar e a qualidade de vida de meus pacientes e da comunidade em geral.

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2 Comments

  1. Durante três meses ficamos em quarentena dentro de casa sem sair pra absolutamente nada. Os meninos já não se interessavam pelos seus brinquedos e só queriam jogar videogame e ver tv. Comecei com os dois pequenos (de 6 e 4 anos) um processo de retirar aos poucos o acesso às telas e aumentar a quantidade de tempo fora de casa (andando de bicicleta e indo ao playground) e consegui um bom resultado. Mas não foi de uma hora pra outra! Houve muita negociação e resistência no princípio, pois estavam “viciados” em tela. Agora já voltaram ao “normal” e brincam com seus brinquedos e gostam de sair de casa!

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    1. Karen você foi bastante consciente em se incomodar com esse excesso de jogos / TV e ao desinteresse em outras atividades dos seus meninos. Com isso pode reverter essa situação com bastante cautela para a melhor qualidade de vida dos seus filhos e família.

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