Autora: Elizabete Possidente
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é caracterizado por sintomas de desatenção, impulsividade e, em alguns casos, hiperatividade, que podem interferir significativamente no dia a dia. Quando associamos tais sintomas às particularidades do ambiente militar — marcado por disciplina, rotina rígida e exigência de foco constante — surgem desafios específicos, porém também oportunidades de manejo e crescimento.
Em ambientes militares, espera‑se que o indivíduo siga rotinas estritas, execute tarefas com alto grau de detalhamento e mantenha atenção sustentada mesmo sob situações de estresse. Para pessoas com TDAH, isso pode significar:
– Dificuldades na adaptação a horários rígidos, levando a atrasos ou esquecimentos de compromissos;
– Baixa tolerância a tarefas repetitivas ou monótonas, prejudicando atividades rotineiras de patrulha ou inspeção;
– Oscilações na capacidade de concentração, especialmente em operações longas que requerem vigilância constante;
– Potencial aumento do estresse, caso o indivíduo perceba repetidas falhas ou receba cobranças por desempenho abaixo do esperado.
Durante recrutamento e seleção, as forças armadas avaliam a aptidão mental e comportamental dos candidatos. A presença de TDAH pode ser considerada em função do grau de comprometimento:
TDAH leve a moderado: muitas vezes não impede a seleção, especialmente se houver controle adequado dos sintomas;
TDAH grave ou não tratado: pode levar à inaptidão para funções que exigem elevada concentração e controle emocional sob pressão, como pilotagem ou comando de equipes em operações críticas.
O sucesso de militares com TDAH depende, em grande parte, de intervenções direcionadas:
– Medicação: estimulantes e não‑estimulantes podem melhorar a atenção e reduzir a impulsividade.
– Terapia comportamental: técnicas de autocontrole, estabelecimento de metas claras e reforço positivo auxiliam na manutenção do foco.
– Manejo de tempo: uso de agendas visuais, alarmes e lembretes eletrônicos para cumprimento de rotinas.
– Treinamento de habilidades executivas: exercícios que desenvolvem planejamento e organização.
Com essas estratégias, muitos indivíduos aprendem a canalizar seus pontos fortes — como energia, capacidade de reação rápida e criatividade sob pressão — em prol de suas atribuições militares.
Paradoxalmente, o ambiente altamente organizado das Forças Armadas pode oferecer elementos benéficos para quem convive com TDAH:
– Rotina e previsibilidade reduzem a sobrecarga de decisões espontâneas;
– Hierarquia clara estabelece regras e limites, facilitando a compreensão de expectativas;
– Sentido de missão e trabalho em equipe promovem engajamento e reforço social positivo, fatores que podem aumentar a motivação e a persistência.
Há um movimento crescente para conscientização e inclusão nas forças armadas:
– Capacitar oficiais e instrutores a reconhecer sinais de TDAH;
– Implementar protocolos de suporte psicológico, garantindo acesso a acompanhamento e acolhimento;
– Promover campanhas educativas que desmistifiquem o transtorno e estimulem uma cultura de inclusão.
Essas iniciativas visam não apenas prevenir a exclusão de candidatos qualificados, mas também otimizar o desempenho e a saúde mental de todos os militares.
Embora o TDAH apresente desafios específicos em contextos militares, o equilíbrio entre tratamento adequado e recursos estruturais das Forças Armadas pode transformar dificuldades em oportunidades de desenvolvimento. Com apoio multidisciplinar — incluindo médicos, psicólogos e instrutores treinados — é possível que indivíduos com TDAH não apenas se adaptem, mas também prosperem em carreira militar, contribuindo de forma única para a missão e o espírito de corpo.
Possidente Assistência Médica